{"id":3738,"date":"2021-06-10T08:46:47","date_gmt":"2021-06-10T08:46:47","guid":{"rendered":"http:\/\/aves.edu.pt\/ces\/?p=3738"},"modified":"2021-06-10T08:46:47","modified_gmt":"2021-06-10T08:46:47","slug":"luis-vaz-de-camoes","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/aves.edu.pt\/ces\/?p=3738","title":{"rendered":"Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque hoje \u00e9 o meu dia e o de todos os portugueses<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apresento-me\u2026<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>     O meu nome \u00e9 Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es e vivi em Portugal no s\u00e9culo XVI. Aqueles que mais tarde viriam a ocupar-se da minha vida (os meus bi\u00f3grafos) viram-se em s\u00e9rios embara\u00e7os para sab\u00ea-lo, visto que n\u00e3o conseguiram obter documen\u00adtos seguros a meu respeito. Muitas hist\u00f3rias se inventaram sobre mim, mas, como diria mais tarde, no s\u00e9culo XX, um famoso cineasta, de origem irlandesa e de nome John Ford, \"quando a lenda ultrapassa a realidade, publique-se a lenda\u2026\u201d\n     De qualquer modo, vou, para que a minha apresenta\u00e7\u00e3o seja mais completa, dizer-vos que nasci em Portugal, em Lisboa, por volta de 1524.\n     A minha fam\u00edlia era pobre e pobre vivi sempre. No entanto, e porque, mesmo pobre, a minha fam\u00edlia pertencia \u00e0 nobreza, pude ser educado no contacto com os cl\u00e1ssicos gregos e latinos, e conhecer toda a literatura e civiliza\u00e7\u00e3o desses dois povos. Li, nomeadamente, os livros que considero os mais importantes do Mundo: os poemas de Homero sobre a Guerra de Tr\u00f3ia - A \u00cdliada - e sobre as aventuras do s\u00e1bio Ulisses - A Odisseia - e o poema de Virg\u00edlio, narrando as navega\u00e7\u00f5es de Eneias - A Eneida. Aprendi tamb\u00e9m muitas lendas ligadas aos Gregos e Romanos, como a lenda dos Argonautas, navegadores que procuravam encontrar o velo de ouro. E fiquei a saber a mitologia dos Gregos e Romanos e, portanto, as hist\u00f3rias dos seus deuses e deusas. Gostei tamb\u00e9m de ler coisas relacionadas com o Rei Artur e os Cavaleiros da T\u00e1vola Redonda, bem como sobre Carlos Magno e os Doze Pares de Fran\u00e7a. Pude conhecer igualmente outros livros e autores estrangeiros muito admirados e lidos no meu tempo, como Ariosto e Petrarca e gostei particularmente dos sonetos deste \u00faltimo.\n     Para al\u00e9m da leitura, Ocupava eu o meu tempo em distrac\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de Jovens, como namorar as cachopas bem lindas do meu tempo, em Coimbra, segundo dizem, e, mais tarde, em Lisboa. Os meus bi\u00f3grafos haveriam de inventar-me muitas namoradas, nomeadamente entre as donzelas e damas da Corte e mesmo amores por princesas. N\u00e3o sou eu quem vos dir\u00e1 se \u00e9 verdade ou mentira tudo quanto pensaram descobrir porque, aqui para n\u00f3s, at\u00e9 fico vai\u00addoso de saber de tantos namoros... A verdade \u00e9 que nem sempre fui muito bem comportado e vi-me envolvido em brigas. \u00c9 que eu era bom espadachim e ai de quem se metesse comigo!... Estive preso por diversas ocasi\u00f5es, nomeada\u00admente em Const\u00e2ncia  dizem os habitantes dessa linda terra junto ao Tejo. Mas tamb\u00e9m sobre isso n\u00e3o h\u00e1 certezas e eu, mesmo que me lembrasse, n\u00e3o iria desapont\u00e1-los.\n     Frequentei tamb\u00e9m Os ser\u00f5es da Corte e fiz muitos versos \u00e0s damas; mais tarde seriam publicados com o t\u00edtulo de L\u00edrica. Ganhei fama, adeptos (sobretudo entre as damas) e inimigos, gente invejosa do meu \u00eaxito e do meu talento de poeta l\u00edrico.\n     A determinada altura fui para soldado, profiss\u00e3o pr\u00f3pria de nobres, e fui com\u00adbater os Mouros para o Norte de \u00c1frica, zona em que o meu Rei queria obter territ\u00f3rios. A vida na tropa n\u00e3o foi nada boa, porque mesmo quando a guerra \u00e9 justa - e eu at\u00e9 achava as guerras contra os Mouros justas e santas, pois acreditava serem boas  para o meu Rei e para poder levar-se a verdadeira reli\u00adgi\u00e3o a \u00c1frica e ao Oriente, - o perigo \u00e9 grande de morrer jovem ou de ser ferido. E foi isso mesmo que sucedeu: fui ferido em combate e perdi para sem\u00adpre um dos meus olhos. Eu at\u00e9 era um rapaz jeitoso e com sorte junto das mo\u00e7as, mas algumas, por maldade, ou simplesmente porque eram tontas, tro\u00ad\u00e7avam de mim por ser cego de um dos olhos, chamando-me \"cara sem olhos\u201d Vingava-me, fazendo versos e at\u00e9 fazendo humor sobre a minha infeli\u00adcidade... Como estes:<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem olhos vi o mal claro<br>que dos olhos se seguiu:<br>pois cara sem olhos viu<br>olhos que lhe custam caro.<br>De olhos n\u00e3o fa\u00e7o men\u00e7\u00e3o,<br>pois quereis que olhos n\u00e3o sejam;<br>vendo-vos, olhos sobejam,<br>n\u00e3o vos vendo, olhos n\u00e3o s\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>     Tempos depois, fui enviado para a \u00cdndia, dizem alguns que como castigo por mau comportamento, outros que por vingan\u00e7a de algum rival por mim vencido nos amo\u00adres ou nas brigas. N\u00e3o me ralei. A verdade \u00e9 que senti um enorme prazer em poder repetir a viagem que tantos portugueses j\u00e1 tinham feito antes e que Vasco da Gama, para mim o mais importante her\u00f3i de Portugal, fizera pela primeira vez em 1498. Gostei de conhecer a costa africana, o Oceano Atl\u00e2ntico e tamb\u00e9m o \u00cdndico e de ir prestar servi\u00e7o para Goa, capital do Imp\u00e9rio Portugu\u00eas do Oriente. Claro que eram viagens dif\u00edceis, mas gostei muito de poder conhecer novos c\u00e9us, novos climas, novos usos e costumes t\u00e3o diferentes dos nossos, novas formas de arte, outras religi\u00f5es e mulheres lind\u00edssimas como a B\u00e1rbara e a Dinamene, de beleza t\u00e3o diferente das mulheres europeias, duas cativas que de mim fizeram para sempre um cativo seu. Sobre a primeira escrevi eu<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquela cativa<br>Que me tem cativo<br>Porque nela vivo<br>J\u00e1 n\u00e3o quer que viva<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>     Tal como tinha acontecido em Lisboa, tamb\u00e9m por estas bandas me n\u00e3o falta\u00adram inimigos... e, a certa altura, fui enviado para Macau, com um cargo oficial. Gostei de estar nesse territ\u00f3rio chin\u00eas ocupado por portugueses. Diz a lenda que em Macau escrevi os meus Lus\u00edadas numa gruta adequada ao trabalho de fazer poesia... Acusaram-me de fraudes. Estava inocente, mas tive de regressar a Goa, em cuja pris\u00e3o passei dias amargos... Por sinal, da minha estadia na pri\u00ads\u00e3o existe um retrato.\n     No Oriente fui igualmente v\u00edtima de um naufr\u00e1gio em que quase perdi a vida e no qual salvei a custo Os Lus\u00edadas. Esse naufr\u00e1gio no rio Mecom deixaria em mim uma enorme tristeza e um grande desalento. \u00c9 que nele morreu a minha Dinamene, que recordaria sempre com saudade e m\u00e1goa. \u00c0 sua recorda\u00e7\u00e3o dediquei poemas muito sentidos. \u00c9 que nunca mais me foi t\u00e3o doce a vida, ap\u00f3s a perda da minha amiga, t\u00e3o jovem, t\u00e3o bela, a quem eu tanto amava e que me amava tanto a mim. Sonho muitas vezes com ela, vejo-a, chamo-a pelo nome..<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dina!\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">e antes que diga mene acordo e vejo<br>que nem um breve engano posso ter.<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-code\"><code>     Regressei algum tempo depois a Portugal e \u00e0 minha Lisboa. Ao contr\u00e1rio de tantos que na \u00cdndia fizeram fortuna r\u00e1pida, regressei mais pobre do que quando tinha sa\u00eddo. Tanto, que s\u00f3 tive dinheiro para pagar a viagem at\u00e9 \u00e0 Ilha de Mo\u00e7ambique. Por l\u00e1 fiquei, at\u00e9 que amigos que vinham da \u00cdndia me pagaram o resto da viagem.\n     Em Lisboa aguardava-me, ansiosa, a minha querida m\u00e3e, uma das muitas que tinham visto partir os filhos com amargura e medo de os n\u00e3o voltar a ver, como conto no meu livro Os Lus\u00edadas. Vinha fraco, pobre e doente. Tive, felizmente, o apoio de um escravo que veio comigo. Melhor direi, de um grande amigo, o Ant\u00f3nio, mais conhecido por Jau, por ser natural da ilha de Java. Muito lhe devo pela amizade e at\u00e9 porque muitas vezes pedia esmola para eu poder sobreviver. Tratei de conseguir a publica\u00e7\u00e3o do meu livro, em que procurei ser um digno continuador do g\u00e9nio de Homero e Virg\u00edlio. N\u00e3o era f\u00e1cil publicar um livro em Portugal. Os Portugueses n\u00e3o ligavam muito \u00e0 arte e \u00e0 poesia, o que \u00e9 pena. Pedi audi\u00eancia ao Rei, um jovem simp\u00e1tico que prometia ser valente -  D. Sebasti\u00e3o         - e pedi-lhe que me permitisse ler-lhe o meu poema - que ali\u00e1s lhe dedicava. Se ele aceitasse ouvir-me, haveria de ver que era muito mais importante ser rei dos Portugueses do que ser rei do Mundo.\n O  Rei aceitou ouvir-me longamente e os seus olhos brilhavam de entusiasmo ao ouvir a hist\u00f3ria do povo lus\u00edada, ou portugu\u00eas, bem mais importante que as muitas hist\u00f3rias dos antigos, j\u00e1 cantadas por Homero e Virg\u00edlio. Ap\u00f3s a leitura, agradeceu-me e prometeu pagar-me uma pens\u00e3o razo\u00e1vel at\u00e9 ao fim dos meus dias. Nem sempre a pens\u00e3o chegou, porque os reis s\u00e3o bem mais r\u00e1pidos a prometer do que a cumprir algumas das suas promessas... Tamb\u00e9m \u00e9 certo que o jovem rei estava envolvido na prepara\u00e7\u00e3o de uma expedi\u00e7\u00e3o militar a Marrocos (mal ele sabia que a\u00ed haveria de perder a vida...), e essas coisas de guerras exigem muito dinheiro...\n     Seja como for, e isso \u00e9 que importa, o meu livro foi publicado em 1572 e com tanto \u00eaxito, que logo nesse ano houve uma segunda edi\u00e7\u00e3o. \u00c9 bom que eu diga aos meus jovens leitores do s\u00e9culo XX que, nessa altura, pouca gente sabia ler. De mim ficaram os meus versos, as composi\u00e7\u00f5es l\u00edricas, em que trato de assuntos sentimentais, emotivos; algumas pe\u00e7as de teatro - EI-rei Seleuco, Anfitri\u00f5es, Filodemo. Mas a minha melhor e mais conhecida obra \u00e9, de facto, Os Lus\u00edadas.\n\n     J\u00e1 chega de tanto falar de mim. Afinal, se hoje sou conhecido em todo o Mundo, tal se deve aos meus poemas e n\u00e3o \u00e0 minha vida como pessoa. E, se a vida me n\u00e3o correu muito bem, depois da minha morte tornaram-me o s\u00edmbolo da nossa p\u00e1tria e daquilo que h\u00e1 de melhor no povo portugu\u00eas. Tanto que, mais tarde, transferiram o que restava do meu corpo para o Mosteiro dos Jer\u00f3nimos, para um t\u00famulo junto ao de Vasco da Gama, onde hoje sou visitado por muitos portugueses e estrangeiros, que me p\u00f5em umas flores de vez em quando. Muitos desses visitantes, se calhar, nunca me leram, mas ouvem falar de mim como um dos grandes poetas da humanidade e como s\u00edmbolo da nossa p\u00e1tria. Por isso, a data da minha morte, 10 de Junho, \u00e9 assinalada como dia feriado: o Dia de Portugal.<\/code><\/pre>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Am\u00e9lia Pinto Pais<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"501\" height=\"700\" src=\"http:\/\/aves.edu.pt\/ces\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/FB_IMG_1623314607117.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3739\" srcset=\"http:\/\/aves.edu.pt\/ces\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/FB_IMG_1623314607117.jpg 501w, http:\/\/aves.edu.pt\/ces\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/FB_IMG_1623314607117-215x300.jpg 215w, http:\/\/aves.edu.pt\/ces\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/FB_IMG_1623314607117-495x692.jpg 495w\" sizes=\"auto, (max-width: 501px) 100vw, 501px\" \/><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Porque hoje \u00e9 o meu dia e o de todos os portugueses Apresento-me\u2026 Sem olhos vi o mal claroque dos olhos se seguiu:pois cara sem olhos viuolhos que lhe custam caro.De olhos n\u00e3o fa\u00e7o men\u00e7\u00e3o,pois quereis que olhos n\u00e3o sejam;vendo-vos, olhos sobejam,n\u00e3o vos vendo, olhos n\u00e3o s\u00e3o. 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