{"id":173,"date":"2011-12-17T21:25:19","date_gmt":"2011-12-17T21:25:19","guid":{"rendered":"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/?p=173"},"modified":"2012-01-13T23:36:53","modified_gmt":"2012-01-13T23:36:53","slug":"a-casa-das-palavras-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/?p=173","title":{"rendered":"A casa das palavras"},"content":{"rendered":"<p><strong>(Homenagem a Eduardo Galeano)<\/strong><\/p>\n<p><strong><em>A ideia surgiu ao ler\u00a0 texto do autor uruguaio \u00abLa casa de las palabras\u00bb, inserto \u00a0no seu <\/em><\/strong><strong>Libro de los abrazos.<em> O texto foi apresentado ao grupo de escreventes que o achou muito  estimulante. Lan\u00e7aram-se v\u00e1rias possibilidades de entrada nesta curiosa  casa. Eis tr\u00eas delas:<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em> <\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>_________________<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tinha ouvido dizer que a casa das palavras \u00e9 uma esp\u00e9cie de\u2026 segunda casa para poetas, escritores, jornalistas, <em>bloggers, <\/em>neologistas, sem esquecer os publicit\u00e1rios, que s\u00e3o dos que mais brincam com elas.<em> <\/em><\/p>\n<p><em>Un d\u00eda hermoso<\/em>\u2026 estava eu a vagabundear num labirinto sem  fim, at\u00e9 que dou de caras com um grande alvoro\u00e7o. Era uma multid\u00e3o a  entrar e a sair daquela esplendorosa casa, pessoas de v\u00e1rios  continentes. Todas elas pretendiam o mesmo: ver, tocar, cheirar, trincar <em>as palavras<\/em>.<\/p>\n<p><em> <\/em>Entrei e\u2026 magn\u00edfico! As palavras pairavam como uma leve  brisa, andavam umas atr\u00e1s das outras, para formarem neologismos: caminh\u00e3o-pipa, seguro-emprego e <em>motoboy<\/em>, enquanto as palavras \u201ccaras\u201d eram as mais raras de encontrar. S\u00f3 consegui ver ao longe a \u00abhecatombe\u00bb e a \u00abmeticulosa\u00bb.<\/p>\n<p>Andei por uns minutos, at\u00e9 que uma\u2026 pousou em cima do meu nariz.  Olhei-a, acarinhei-a, e ela? Olhou-me e ternamente declarou\u2026 AMO-TE.<\/p>\n<p>Nesse mesmo segundo, essa palavra ficou presa dentro do meu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Diogo Ribeiro, 11.\u00ba B<\/p>\n<p>_________________<\/p>\n<p><strong> <\/strong><\/p>\n<p>Andava eu a deambular por uma livraria no Oeiras Parque, a ver se j\u00e1 havia o livro <em>O Di\u00e1rio do Imortal Nicolas Flamel: A Feiticeira <\/em>quando  encontrei um livro ca\u00eddo no ch\u00e3o. Peguei nele, achando que era o  correto a fazer quando reparei no t\u00edtulo do texto na p\u00e1gina 7: <em>La casa de las palabras<\/em>.  \u00a0Falava \u00a0de uma casa aonde as palavras habitavam, guardadas em frascos  de cristal. Uma ideia bastante original e engra\u00e7ada. Depois de o ter  guardado passei cerca de meia hora na <em>Worten <\/em>a \u201cnamorar\u201d alguns videojogos mas sempre a pensar se <em>la<\/em> <em>casa de las palabras<\/em> existiria realmente.<\/p>\n<p>Ao que parece sempre era verdade. Ficava algures no Uruguai embora  n\u00e3o tivesse conseguido encontrar uma localiza\u00e7\u00e3o espec\u00edfica. Dizia-se,  no entanto, que apenas as pessoas realmente h\u00e1beis numa l\u00edngua, fosse  ela qual fosse, \u00e9 que sabiam da sua localiza\u00e7\u00e3o. Simples. Liguei \u00e0 minha  professora de Portugu\u00eas do secund\u00e1rio, pois ela de certeza que a  conhecia, e ali\u00e1s j\u00e1 a devia ter visitado de t\u00e3o viajada que \u00e9.<\/p>\n<p>\u00abAlgures no Cerro Catedral na regi\u00e3o de Las Ca\u00f1as\u00bb. Foi isto que a  Sr\u00aa Professora me disse. Curioso, apanhei o primeiro avi\u00e3o do dia  seguinte para o Uruguai.<\/p>\n<p>Bem me podia ter dito que a casa estava muito escondida porque eu  demorei uma semana para a encontrar e fiz v\u00e1rias chamadas internacionais  para a Sr.\u00aa Professora a garantir que ela estava realmente naquela  montanha e a pedir dire\u00e7\u00f5es porque ningu\u00e9m (e eu digo mesmo: ningu\u00e9m!) \u00e9  capaz de a encontrar sem instru\u00e7\u00f5es MUITO ESPEC\u00cdFICAS!!! Mas enfim, l\u00e1  cheguei, esgotado, depois de duros dias \u00e0 procura, a uma pequena casa de  madeira de aspeto abandonado, humilde e discreta. Eu pr\u00f3prio n\u00e3o achei,  ao princ\u00edpio, que era aquela mesmo a casa, mas a minha guia confirmou-o  atrav\u00e9s da est\u00e1tica da chamada transatl\u00e2ntica. Estranhando, entrei.<\/p>\n<p>Por dentro, a casa fez-me uma confus\u00e3o enorme. Era BEM maior do que  por fora. Dizer que era gigantesca era um insulto, colossal mal chegava  aos calcanhares do seu tamanho. O que posso dizer \u00e9 que a casa parecia  poder controlar a dimens\u00e3o do espa\u00e7o. Havia prateleiras sem fim at\u00e9 onde  a vista j\u00e1 n\u00e3o chegava. Todas elas cheias de frascos de cristal com  palavras. Todas elas organizadas por l\u00ednguas. Todas elas a desejarem ser  usadas. Havia mais gente para al\u00e9m de mim dentro da casa, n\u00e3o muita,  mas alguma. Julgo que vi algu\u00e9m l\u00e1 ao fundo na zona alem\u00e3, mas estava  t\u00e3o longe que n\u00e3o tenho a certeza. Reparei que ao meu lado havia uma  esp\u00e9cie de <em>segway <\/em>com um pequeno ecr\u00e3 que servia de <em>GPS. <\/em>Certamente  para ajudar no transporte pois existem cerca de 6912 idiomas no mundo  actualmente e n\u00e3o seria muito agrad\u00e1vel ter de andar at\u00e9 ao\u2026 Vietnamita,  por exemplo. Mesmo assim, de <em>segway <\/em>ainda \u00e9 capaz de demorar, mas sempre se cansa menos as pernas. Inseri as instru\u00e7\u00f5es e a pequena motorizada<em> <\/em>come\u00e7ou  a andar sozinha. Assim que ficou numa linha perpendicular \u00e0s  prateleiras, o monitor passou uma mensagem a dizer \u201cAgarre-se bem\u201d, umas  pulseiras met\u00e1licas prenderam-me os p\u00e9s e as m\u00e3os e a m\u00e1quina acelerou  brutalmente. Facilmente chegava aos 300 km\/h, as prateleiras j\u00e1 n\u00e3o  passavam de borr\u00f5es castanhos e eu gritava (de alegria, ainda que no  in\u00edcio me tivesse assustado). No monitor passavam as l\u00ednguas, indicando  quanto tempo \u00e9 que faltava at\u00e9 chegar ao destino. Ainda sorri quando  reparei que tamb\u00e9m tinham o dialeto do Mirand\u00eas mas, quando cheguei e vi  aquele grande <em>placard<\/em> a dizer \u201cPortugu\u00eas\u201d eu pensei: \u201cQue palavra \u00e9 que procuro?\u201d.<\/p>\n<p>Larguei o <em>segway <\/em>e decidi apenas deambular a ver o que  encontrava. No \u201cA\u201d reparei na palavra \u201cador\u00e1vel\u201d e atrav\u00e9s do cristal  podia-se ver um voc\u00e1bulo muito fofo e de uma cor t\u00e3o doce, a pedir, numa  voz muito bonita e bem\u2026 ador\u00e1vel\u2026 para a utilizar. N\u00e3o resisti a n\u00e3o  dizer o seu nome. Riu-se de uma forma encantadora e agradeceu. N\u00e3o sabia  que as palavras eram assim. Ainda me assustei ao abrir o frasco do  \u201cbarulho\u201d, levei um murro da palavra \u201cmau\u201d (erro meu, por sequer pensar  que nada me aconteceria ao abrir aquele frasco). Achei que a palavra  \u201cmaquiav\u00e9lico\u201d estava a engendrar um plano para me matar e deliciei-me  com a palavra \u201cchocolate\u201d (pena que n\u00e3o possa ficar com ela para  sempre). Bem, ainda reparei na \u201cfineza\u201d da \u201caristocracia\u201d e que a  palavra \u201cbonito\u201d pareceu estar a ganhar algum p\u00f3, mas devido a  trapalhice minha, deixei cair o frasco da palavra \u201cfarisaico\u201d que se  desfez por completo. A palavra, que parecia bastante feliz no seu lugar,  desapareceu num instante assim que a oportunidade apareceu. Como vim a  perceber nas semanas seguintes, a palavra aproveitou para se infiltrar  nos vocabul\u00e1rios de todos e for\u00e7ar a sua utiliza\u00e7\u00e3o, independentemente  de ser bem empregue ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Achei melhor ir-me embora depois deste acidente, no entanto, a minha  consci\u00eancia n\u00e3o me permitiu partir sem antes deixar um bilhete no local  onde estava a palavra, a pedir desculpa pelo sucedido e para me  telefonarem caso fosse necess\u00e1rio pagar pelo frasco.<\/p>\n<p>Ainda hei-de voltar l\u00e1 um dia destes, fazer uma pesquisa a s\u00e9rio,  aprender novas palavras para os textos que gosto de escrever, de vez em  quando, em portugu\u00eas e em ingl\u00eas, mas tamb\u00e9m para voltar a andar naquele  <em>segway<\/em>. U\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed\u00ed!!!\u2026<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Perestrello, 11.\u00ba B<\/p>\n<p>___________________<\/p>\n<p>A balb\u00fardia estava instalada, as palavras estavam todas desordenadas, todas corriam de um lado para o outro \u00e0 procura dos seus sufixos ou prefixos para se unirem de novo e encherem os frascos correspondentes. Sim, porque nesta casa as palavras vivem dentro de frascos.<\/p>\n<p>A Alegria tinha dado uma festa, seria o seu anivers\u00e1rio, mas como j\u00e1 lhe perdeu a conta chamou apenas o Bailarico para p\u00f4r todos a dan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Mas a hora das visitas aproximava-se e \u00abn\u00e3o \u00e9 nada de bom tom receber os nossos\u00a0 ilustres utilizadores com esta desarruma\u00e7\u00e3o!\u00bb- refilam as palavras chiques: o Glamour e o Charme.<\/p>\n<p>J\u00e1 com tudo em ordem, quando a \u00faltima palavra, a Fama, se recolhe\u00a0 espalhando\u00a0 o seu brilho pelo sal\u00e3o, o Sil\u00eancio toma conta da casa.<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio bate quatro horas certas, ouvem-se passos no corredor, a ma\u00e7aneta da porta roda, e como j\u00e1 era habitual \u00e0s quartas-feiras, entram os especialistas mais esperados pelas palavras, os escritores, e principalmente os poetas.<\/p>\n<p>As palavras dentro dos frascos agitavam-se. Todas queriam ser escolhidas por estes especialistas, pois eles fazem maravilhas com elas e tornam-nas conhecidas.\u00a0 O que era \u00f3ptimo para os neologismos, mas p\u00e9ssimo para os arca\u00edsmos que ao ver os especialistas a p\u00f4-las de lado, se juntam num s\u00f3 frasco, decidem abrir um pequeno consult\u00f3rio para partilhar com todas as palavras mais novas as suas experi\u00eancias de vida e aconselhar-lhes caminhoz de sucesso.<\/p>\n<p>Para escolher as palavras, os poetas abriam frasco a frasco, mergulhavam a pontinha do dedo, experimentavam com a ponta da l\u00edngua e s\u00f3 eram escolhidas as mais docinhas ou as mais amargas consoante o estilo de texto e o que se queria transmitir ao leitor. Os outros escritores apenas as cheiravam e reconheciam as desejadas s\u00f3 pelos seus aromas. Embora n\u00e3o sejam todas escolhidas, as palavras n\u00e3o desanimavam at\u00e9 porque todos estes dedos e todos estes narizes provocavam-lhes c\u00f3cegas e toda a sala se enchia de todo o tipo de gargalhadas, gargalhadas essas que os especialistas da l\u00edngua n\u00e3o conseguiam ouvir, pois o revestimento dos frascos n\u00e3o o permitia.<\/p>\n<p>Mas um dos escritores ao cheirar um dos frascos, como o aroma era bastante forte, espirrou e deixou-o cair. As palavras espalharam-se pelo ch\u00e3o e agitadas n\u00e3o paravam de se empurrar, de gritar e de tentar entrar no frasco onde se sentiam protegidas. O escritor agora tinha a certeza que as palavras n\u00e3o estavam mortas, que afinal estavam bem vivas. E assim foi desvendado o segredo das palavras. O escritor apressado saiu e mais uma vez o sil\u00eancio tomou conta da casa.<\/p>\n<p>Resolveu o escritor p\u00f4r ao corrente da sua descoberta alguns colegas, mas rapidamente um jornalista o interrompeu: \u00abas palavras est\u00e3o vivas? Ora aqui est\u00e1 um bom segredo para a minha pr\u00f3xima publica\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p>\u00abSegredo?\u00bb pergunta um dos poetas presentes na sala, \u00abn\u00e3o h\u00e1 segredo nenhum, no fundo todos n\u00f3s j\u00e1 o sab\u00edamos, claro que as palavras est\u00e3o vivas. Tal como os seres vivos elas nascem, crescem reproduzem-se e morrem. A nossa fun\u00e7\u00e3o \u00e9 essa, assegurar as suas vidas o seu crescimento at\u00e9 as gastar. Quem acha que as palavras n\u00e3o vivem est\u00e1 muito enganado, mas n\u00e3o lhe contes esse segredo maravilhoso deixa-os descobrir por si mesmo e aprender a ouvir os que as palavras lhes querem dizer e pode ser que um dia venham a ser mais a cri\u00e1-las e a fazer com que cres\u00e7am.<\/p>\n<p>Maria da Gra\u00e7a, 11.\u00ba B<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>(Homenagem a Eduardo Galeano) A ideia surgiu ao ler\u00a0 texto do autor uruguaio \u00abLa casa de las palabras\u00bb, inserto \u00a0no seu Libro de los abrazos. O texto foi apresentado ao grupo de escreventes que o achou muito estimulante. 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