{"id":313,"date":"2012-05-16T20:38:22","date_gmt":"2012-05-16T20:38:22","guid":{"rendered":"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/?p=313"},"modified":"2012-05-16T20:38:22","modified_gmt":"2012-05-16T20:38:22","slug":"na-terra-das-expressoes-idiomaticas-e-afins","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/?p=313","title":{"rendered":"Na terra das express\u00f5es idiom\u00e1ticas e afins"},"content":{"rendered":"<p>Fui obrigado a fugir por raz\u00f5es que n\u00e3o posso revelar. Fugi do meu pa\u00eds, rumo \u00e0 floresta da Amaz\u00f3nia, tentar sobreviver tempo suficiente at\u00e9 arrefecerem os \u00e2nimos, o que durou cerca de um ano.<br \/>\nN\u00e3o tive dificuldades, fui treinado para aguentar situa\u00e7\u00f5es destas, mas para grande surpresa minha, quando explorava a floresta para ver at\u00e9 onde era poss\u00edvel ir sem me perder na vegeta\u00e7\u00e3o, encontrei uma grande parede de tijolo com uma placa a dizer \u201cTerra das express\u00f5es idiom\u00e1ticas\u201d (estranhei a placa estar em portugu\u00eas) e um grande port\u00e3o escancarado em metal. Curioso, entrei, e a primeira coisa que vi foi uma criatura sem p\u00e9s nem cabe\u00e7a a fugir com o rabo entre as pernas de uma ave de mau agouro.<br \/>\n\u2014 Okaaaaay? Mas que raio foi aquilo?<br \/>\nEstranhei de novo, mas decidi continuar a andar, para ver se encontrava algo que me pudesse ajudar a passar o tempo de que precisava at\u00e9 que as coisas acalmassem.<br \/>\nPassou por mim uma mosca e, enquanto eu tentava enxot\u00e1-la, uma seta rasou-me a m\u00e3o e a cara, espetando-se contra a parede de uma casa. Ouvi logo de seguida uma voz a gritar:<br \/>\n\u2014 NA MOSCA!!!<br \/>\nQuando reparei, a seta trespassava em cheio nela, algo que n\u00e3o achava que fosse realmente poss\u00edvel.<br \/>\n\u2014 Pe\u00e7o desculpa. N\u00e3o o magoei pois n\u00e3o?<br \/>\nQuando olhei para tr\u00e1s, estava um rapaz. N\u00e3o devia ter mais de 8 anos, mas chocou-me o facto de ele n\u00e3o ter a boca onde devia. Ele falava pelos cotovelos. O cotovelo que abria e fechava, deixava \u00e0 vista uns dentes bem afiados que quase pareciam cortar o m\u00fasculo que estava mil\u00edmetros atr\u00e1s, havendo at\u00e9 uma pequena abertura de onde se podia ver o osso. O rapaz repetiu a pergunta, \u00e0 qual respondi balbuciando:<br \/>\n\u2014 N-N\u00e3o, n\u00e3o me magoaste. Diz-me, t\u00eam algu\u00e9m que governe esta cidade?<br \/>\n\u2014 Temos sim \u2013 dizia ele pelo cotovelo. \u2014 O Testa de Ferro.<br \/>\n\u2014 Testa de Ferro? Porqu\u00ea esse nome?<br \/>\n\u2014 Ora, porque ser\u00e1? Tem uma testa de ferro&#8230;<br \/>\n\u2014 E onde \u00e9 que o posso encontrar?<br \/>\n\u2014 A minha m\u00e3e disse-me que ele ia hoje para a pra\u00e7a fazer um discurso para a sua reelei\u00e7\u00e3o. \u00c9 seguir em frente e virar \u00e0 esquerda nas sete quintas.<br \/>\nAgradeci e fui andando. N\u00e3o foram necess\u00e1rios mais do que alguns passos at\u00e9 que vi uma mulher a chorar sobre leite derramado, um homem com uma corda ao pesco\u00e7o e outro a entrar por um cano.<br \/>\nEstava eu j\u00e1 nas sete quintas, quando passou por mim uma mulher a engolir um sapo\u2026 vivo\u2026 Parecia estar com dificuldades para conseguir tal proeza, por isso, tirou do bolso o que me pareceu ser uma tempestade num copo de \u00e1gua. Pegou no copo, aproximou-o do sapo e esperou uns segundos. A tempestade criou um rel\u00e2mpago que fez o sapo entrar pela garganta abaixo dela.<br \/>\nFingindo que nada de perturbador se tinha passado, cheguei por fim \u00e0 pra\u00e7a, onde estava o Testa de Ferro a responder a perguntas do p\u00fablico. Reparei, no entanto, que ele parecia bastante inseguro.<br \/>\n\u2014 O Sr. Presidente \u2014 perguntava um homem com as barbas de molho \u2014 vai decidir o que fazer com os cidad\u00e3os que passam a vida a trepar paredes? Eles j\u00e1 s\u00e3o mais que as m\u00e3es.<br \/>\nO Sr. Presidente andou de um lado para o outro at\u00e9 que se virou para uma pessoa que dava \u00e1gua pelo joelho e que fez ele? Lavou as m\u00e3os! P\u00f4s-se de joelhos \u00e0 frente do tipo, abriu a torneira e lavou as m\u00e3os.<br \/>\nUma senhora, que batia as botas sarcasticamente, gritava:<br \/>\n\u2014 N\u00e3o pode lavar as m\u00e3os para sempre, se n\u00e3o decidir o que fazer, pego na sua testa e fervo-a em pouca \u00e1gua!<br \/>\nA popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava a ficar impaciente, come\u00e7ou a exaltar-se, a aproximar-se cada vez mais do presidente. Vi um homem com uma cabe\u00e7a de alho chocho a pegar numa forquilha, onde outro homem, este bem mais pequeno, se agarrava com unhas e dentes, uma mulher que tinha um pesco\u00e7o t\u00e3o grande que parecia deix\u00e1-la com a cabe\u00e7a nas nuvens a pegar numa foice e outro que abriu o cora\u00e7\u00e3o para de l\u00e1 tirar uma lata.<br \/>\n\u2014 Bem, isto j\u00e1 \u00e9 demais \u2014 pensei \u2014 Estou a ver que aqui n\u00e3o irei conseguir ajuda nenhuma.<br \/>\nFiz um gesto de despedida que, certamente, ningu\u00e9m viu, pois estavam todos ocupados a mudar de \u00e1gua para o vinho e voltei para o acampamento improvisado que tinha no meio da floresta \u00e0 sombra de uma bananeira a evitar voltar \u00e0 vaca fria.<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o Perestrello, 11\u00ba B<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fui obrigado a fugir por raz\u00f5es que n\u00e3o posso revelar. 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