{"id":39,"date":"2011-04-18T13:11:50","date_gmt":"2011-04-18T13:11:50","guid":{"rendered":"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/?p=39"},"modified":"2011-04-19T18:03:14","modified_gmt":"2011-04-19T18:03:14","slug":"cartas-com-destinatarios-fantasticos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/?p=39","title":{"rendered":"Cartas com destinat\u00e1rios fant\u00e1sticos"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Eol\u00e2ndia, num dia qualquer de um m\u00eas ventoso, do ano das 2010 rajadas<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Caro amigo Vento,\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Como tens soprado? Tem sido f\u00e1cil abanar as \u00e1rvores para que dispam os seus vestidos, agora no Outono? Tens levantado as saias das senhoras que passeiam pelas ruas?\u00a0 Espero que sim, e que continues com o teu bom trabalho.<\/p>\n<p>E a fam\u00edlia, como vai? Como est\u00e1 a tua filha Ventania? E a tua esposa, a Brisa Suave de que tanto gosto, que acaricia a minha face sempre que passa por mim? N\u00e3o fiques ciumento, n\u00e3o digo estas coisas para te deixar irritado, n\u00e3o quero que fiques de mau humor. Ainda h\u00e1 um furac\u00e3o num dos quatro cantos da terra por minha causa&#8230; N\u00e3o quero ficar com esse peso na minha consci\u00eancia. Quando te zangas, destr\u00f3is tudo \u00e0 tua passagem, derrubas as mais belas \u00e1rvores, retiras os chap\u00e9us \u00e0s casas, \u00e9 um grande problema.\u00a0<\/p>\n<p>Vamos ao que interessa, o motivo que me levou a escrever-te esta carta. Estou realmente preocupada contigo. Quero pedir\u2011te que tomes os calmantes todos os dias. Tens visto as not\u00edcias? Sabes o que tens feito? Parece-te bem? A mim n\u00e3o&#8230; Sei que n\u00e3o fazes por mal, mas isto n\u00e3o pode continuar assim&#8230;<\/p>\n<p>\u00a0Parece-me que tens dupla personalidade. Aconselho\u2011te a consultar um especialista. Tu, amigo Vento, que nos fazes t\u00e3o bem e t\u00e3o mal ao mesmo tempo. Quero agradecer-te por todas as coisas boas que fazes e repreender-te por todas as maldades. Obrigada por me refrescares no Ver\u00e3o, por me fazeres sentir livre sempre que bates docemente na minha cara, obrigada pelo oxig\u00e9nio que me trazes. Agrade\u00e7o-te\u00a0 tamb\u00e9m pelo simples facto de existires. Se pudesses ser sempre assim&#8230; Mas n\u00e3o! \u00c0s vezes pergunto-me porque o fazes. Porque insistes em mostrar a tua for\u00e7a e o teu poder? N\u00e3o acredito que seja apenas para te gabares. Tem de haver outra raz\u00e3o. E qual \u00e9?<\/p>\n<p>Esta foi a nona pergunta que te fiz nesta carta. Exijo uma resposta veloz para todas elas.<\/p>\n<p>Brisas e abra\u00e7os\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">A tua amiga Maria Eol\u00f3fila, 10.\u00ba C<\/p>\n<p>\u00a0_________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><a href=\"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/105_3615.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-54\" src=\"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/105_3615-300x224.jpg\" alt=\"\u00e1rvores no nevoeiro\" width=\"300\" height=\"224\" srcset=\"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/105_3615-300x224.jpg 300w, http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/wp-content\/uploads\/2011\/04\/105_3615-1024x767.jpg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Nebelinol\u00e2ndia, numa madrugada do Brum\u00e1rio de 2010<\/p>\n<p>Meu adorado Nevoeiro,<\/p>\n<p>Escrevo-lhe para lhe dizer o quanto me fascina. N\u00e3o sei porqu\u00ea mas sinto-me feliz sempre que o vejo. Ser\u00e1 porque me visitou na madrugada de ver\u00e3o em que nasci? Ser\u00e1 porque \u00e9 silencioso quando vem, fica ou vai? Ser\u00e1 porque me traz sossego quando faz desaparecer tudo o resto \u00e0 medida que o envolve?<\/p>\n<p>Existem muitas pessoas que o odeiam, pelas mais variadas raz\u00f5es: por lhes tapar a vis\u00e3o enquanto conduzem, por trazer sempre consigo o seu grande amigo Frio ou por (na opini\u00e3o delas) lhes tirar a beleza do que est\u00e1 \u00e0 volta enquanto nos visita.<\/p>\n<p>Adoraria um dia acompanh\u00e1-lo nas suas viagens pelo mundo, infelizmente, n\u00e3o me \u00e9 poss\u00edvel, pelo menos por enquanto. N\u00e3o disponho dos recursos, do tempo ou sequer sou feito de mat\u00e9ria capaz de flutuar no ar, apesar de n\u00e3o me importar de o ser.<\/p>\n<p>Gostaria ainda de lhe perguntar o que faz quando vem c\u00e1 a Portugal. Ser\u00e1 que vem para ver o seu desenvolvimento ao longo dos s\u00e9culos? Vem ver os nossos monumentos? Bem isso talvez n\u00e3o, visto que j\u00e1 est\u00e1 aqui na Terra desde que ela tem atmosfera portanto provavelmente assistiu \u00e0 sua constru\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 que s\u00f3 vem pela simples vontade de passear? Seja como for, aproveito para lhe pedir o que me pode contar de Londres. \u00c9 uma cidade \u00e0 qual eu sempre quis ir mas ainda n\u00e3o tive possibilidade.<\/p>\n<p>Bem, n\u00e3o quero ma\u00e7\u00e1-lo mais, por isso termino com um pedido: que me visite no meu anivers\u00e1rio.<\/p>\n<p>P.S: D\u00ea tamb\u00e9m os meus cumprimentos ao seu amigo Frio e um agradecimento por me ter ajudado a aprender a pronunciar o \u201cR\u201d quando proferi pela primeira vez o seu nome.<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Sebasti\u00e3o Omicl\u00e9filo, 10.\u00ba B<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>_________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Lamego, na primeira tarde fria de Novembro de 2010<\/p>\n<p>Querid\u00edssimo cachecol,<\/p>\n<p>As tuas riscas coloridas iluminam os dias mais cinzentos. Passeio contigo naqueles dias em que as folhas amarelas caem das formos\u00edssimas \u00e1rvores espalhadas por toda a avenida.<\/p>\n<p>Eras apreciado e cobi\u00e7ado pelas pessoas quando estavas na montra das lojas enrolado \u00e0 volta de um manequim. Foi assim que me seduziste. N\u00e3o me arrependo de te ter comprado, pois de facto, \u00e9s indispens\u00e1vel, porque me proteges daqueles vendavais que arrancam cabelos e do gelo das noites invernais.\u00a0<\/p>\n<p>Sei que ainda vou passar um longo tempo contigo, mas quando chegarem aqueles dias mais suaves de Primavera, terei que te arrumar. Espero que n\u00e3o te aborre\u00e7as naquela gaveta funda e escura, onde te irei depositar. Mas n\u00e3o te preocupes, porque esse tempo ainda vem longe.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Um caloroso e colorido beijo.<\/p>\n<p>\u00a0Da tua grande amiga,<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Ana Ribeiro Friorento, 10.\u00ba B<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>_________________________________<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Lamego, numa tarde de Novembro de 2010<\/p>\n<p>Minhas mui queridas chuteiras,<\/p>\n<p>Escrevo\u2011vos esta carta com o prop\u00f3sito de vos transmitir os meus agrados, desagrados e alguns sentimentos.<\/p>\n<p>Eu, que quando cheguei \u00e0 loja e vos vi, me virei para a minha m\u00e3e e lhe disse:\u00a0 \u00abS\u00e3o as tais, m\u00e3e!\u00bb, desde j\u00e1, queria pedir-vos desculpa pelo facto de vos fazer acordar todos os domingos de manh\u00e3 para\u00a0 serem violentamente caceteadas, mas essa infelizmente \u00e9 a vossa fun\u00e7\u00e3o, lamento. Sinto-vos um pouco desgastadas, \u00e9 normal, mas ainda sois muito novas. Se bem que j\u00e1 quereis meter os pap\u00e9is da reforma! Por favor, tudo bem que t\u00eam uma profiss\u00e3o cansativa e intensa. Compreendo que tendo tr\u00eas dias \u00fateis de trabalho por cada semana, depois do descanso, levantar ao fim-de-semana, seja muito dif\u00edcil, mas, caramba, ainda t\u00eam muito que pisar, derrapar, rematar, enfim, celebrar comigo os golos e, principalmente, cooorrrer!<\/p>\n<p>No entanto, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 aspectos negativos, n\u00e3o. V\u00f3s sois confort\u00e1veis, elegantes, de marca cara, e desde que vos adquiri, que sinto um maior rendimento, o que \u00e9 excelente. Foi convosco cal\u00e7adas nos meus p\u00e9s que marquei o meu primeiro golo neste novo clube. Sei que n\u00e3o o viram, mas decerto que sentiram a energia com que rematei. Que goooooolo, minhas queridas! Se juntarmos todos os quil\u00f3metros que voc\u00eas j\u00e1 andaram, j\u00e1 teriam dado mais de 3 voltas \u00e0 volta do mundo! Bom, do meu mundo. Infelizmente vou separar-me de v\u00f3s, embora permane\u00e7ais parceiras da minha vida (&lt;3) .<\/p>\n<p>Com mais nada para vos dizer de momento, despe\u00e7o-me com muitos mimos, adiantando-vos que em breve ter\u00e3o novo habitat, o meu cantinho de recorda\u00e7\u00f5es especiais no s\u00f3t\u00e3o, pois se eu vos dou \u00e0 minha m\u00e3e, de certeza que a vossa pr\u00f3xima morada ser\u00e1 o lixo.<\/p>\n<p>Um sentido adeus <em>del goleador <\/em>que marcou convosco.<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">\u00a0Paulo, 10.\u00ba B<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Eol\u00e2ndia, num dia qualquer de um m\u00eas ventoso, do ano das 2010 rajadas \u00a0 Caro amigo Vento,\u00a0\u00a0 Como tens soprado? Tem sido f\u00e1cil abanar as \u00e1rvores para que dispam os seus vestidos, agora no Outono? 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