{"id":47,"date":"2011-04-18T18:06:49","date_gmt":"2011-04-18T18:06:49","guid":{"rendered":"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/?p=47"},"modified":"2011-06-16T14:26:09","modified_gmt":"2011-06-16T14:26:09","slug":"convidados-especiais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/aves.edu.pt\/cle\/?p=47","title":{"rendered":"Convidados especiais"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<div>\n<p>\u00a0<strong>O ponto de partida foi este verso de Ondjaki : \u00abConvidei a chuva para o meu poema\u00bb. Pediu-se aos alunos que convidassem entidades especiais e que as recebessem no seu texto, essa sala privilegiada para acomodar a fantasia. Eles contam-nos as suas extraordin\u00e1rias experi\u00eancias de anfitri\u00f5es do Atrevimento, do Sil\u00eancio, da Alegria, do Sol.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>\u00a0<span style=\"text-decoration: underline\">Convidei o Atrevimento para o meu texto.<\/span><\/p>\n<p>Tinha programado um jantar requintado, em que ele era o convidado especial. Esperava que fosse uma verdadeira gala.<\/p>\n<p>Estava quase tudo pronto: os pontos nos \u00ab-is\u00bb; as palavras a conversarem por ordem fr\u00e1sica; os par\u00e1grafos instalados salteadamente. Faltava apenas o t\u00e3o esperado convidado especial. Tocaram \u00e0 campainha. \u00a0<\/p>\n<p>&#8211; Finalmente! Entra! Estava ansiosa pela tua chegada!<\/p>\n<p>&#8211; Desculpa, cruzei-me com a dist\u00e2ncia! Demorei um bocado a despach\u00e1-la!<\/p>\n<p>&#8211; Entra, que j\u00e1 est\u00e3o todos \u00e0 tua espera.<\/p>\n<p>Seguiu-me at\u00e9 ao texto. Deixei-o acomodar-se junto ao restante vocabul\u00e1rio. Fui buscar os dois ingredientes principais da refei\u00e7\u00e3o dessa noite: l\u00e1pis e papel. Quando voltei ao ponto de encontro, o Sil\u00eancio tinha ido embora, voltando na vez dele o divertido, embora por vezes incomodativo, Barulho. Pareceu-me que estavam todos a ter grandes di\u00e1logos, no entanto s\u00f3 consegui transcrever palavras soltas.<\/p>\n<p>Era hora de jantar, por isso anunciei-o.<\/p>\n<p>Sent\u00e1mo-nos \u00e0 volta da narrativa. Eu estava sentada entre duas vastas palavras: a Inspira\u00e7\u00e3o e, claro est\u00e1, o Atrevimento! Reparei que a Inspira\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava muito para conversar, mas o Atrevimento resolveu logo essa quest\u00e3o. Ele n\u00e3o se calava. Falava de tudo, e \u00e0 medida que o tempo ia passando a Inspira\u00e7\u00e3o ia \u201canimando\u201d. A certa altura parecia que j\u00e1 nem se lembravam que eu estava ali. Estava a ser totalmente ignorada, mas n\u00e3o me importei, pois assim tinha mais tempo para tomar as minhas notas. Ainda tentei intervir na conversa, mas logo me calaram, continuando com o seu di\u00e1logo intermin\u00e1vel.<\/p>\n<p>Matilde Velloso, 10.\u00ba B<\/p>\n<p>\u00a0_____________________<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">\u00a0<\/span><span style=\"text-decoration: underline\">Convidei o Sil\u00eancio para o meu texto\u2026<\/span><\/p>\n<p>\u2026Ouvi a campainha de pontua\u00e7\u00e3o a tocar, por travessura do seu inimigo Barulho. Segundo ele me disse por telepatia, a \u00fanica maneira que usa para conversar. Para evitar o regresso do seu inimigo convidei-o a entrar utilizando o mesmo m\u00e9todo de comunica\u00e7\u00e3o e pedi para se sentar no meu sof\u00e1 de palavras, enquanto lhe trazia um lanche de travess\u00f5es e uma bebida de ap\u00f3strofes. Ele vinha vestido no seu traje habitual, um casaco de par\u00eantesis preto, umas cal\u00e7as de tremas escuros, um chap\u00e9u preto ao estilo dos filmes de detectives antigos e uns t\u00e9nis de letras brancas sem sentido, a condizer.<\/p>\n<p>Durante a refei\u00e7\u00e3o perguntei-lhe pelo Sossego, a Calma e a Tranquilidade que tamb\u00e9m convidei; contou-me que o Sossego tinha de trabalhar at\u00e9 mais tarde na Shiu! Lta. e que n\u00e3o podia vir, e que a Calma vinha c\u00e1 ter depois de terminar o seu jogo de golfe, mas n\u00e3o sabia da Tranquilidade. Provavelmente estava nalgum bosque a passear, coisa que ela tanto aprecia, e n\u00e3o reparou nas horas. Pouco depois apareceu a Calma a bater na porta de tis. Depois de todas as cordialidades pr\u00f3prias de pessoa educada, repar\u00e1mos que a Tranquilidade estava a demorar bem mais do que o costume, por isso, decidimos procur\u00e1-la, talvez no parque de frases que havia ao p\u00e9 da casa dela, mas, depar\u00e1mo-nos com um problema logo que sa\u00edmos de minha casa. O Barulho apareceu com a sua prima Chinfrineira e o seu irm\u00e3o mais velho, o Estrondo, a pregar partidas ruidosas a todos os que passavam, utilizando buzinas de carros de asteriscos, mi\u00fados a gritar, televisores de cardinais em montras com o volume no m\u00e1ximo\u2026 Qualquer coisa que fa\u00e7a som numa cidade de textos. Felizmente n\u00e3o tivemos que nos deparar com eles, pois havia uma paragem de autocarros de <em>underscors <\/em>\u00e0 prova de som<em> <\/em>quase \u00e0 porta da minha casa, e n\u00f3s apanh\u00e1mos um. No parque, ela n\u00e3o estava, por isso seguimos para o pequeno bosque que havia fora da cidade. Por alguma raz\u00e3o ela tinha a sua casa na ponta da cidade. Demor\u00e1mos cerca de uma hora para a encontrar deitada de barriga para cima, no ch\u00e3o, a dormir perto de uma \u00e1rvore. O Sil\u00eancio, que tinha uma paix\u00e3o de longa data por aquela bela criatura, voltou a cara discretamente ao v\u00ea-la assim, corando.<\/p>\n<p>-O que fazemos agora? \u2013 Perguntou de imediato o Sil\u00eancio \u2013 Se a acordarmos ela vira F\u00faria, se n\u00e3o, ela \u00e9 capaz de s\u00f3 acordar \u00e0 noite; ela tem medo do escuro.<\/p>\n<p>-Tens raz\u00e3o. Temos de pensar e\u2026 \u2013 Ia a Calma a responder quando um barulho alt\u00edssimo que n\u00e3o reconheci a interrompeu. T\u00e3o alto que o Sil\u00eancio fugiu para tr\u00e1s de uma \u00e1rvore no sentido oposto do som, a tapar os ouvidos, onde a intensidade era menor (a diferen\u00e7a era menos de 0.000001 decib\u00e9is, mas tudo conta para os ouvidos do Sil\u00eancio).<\/p>\n<p>Mais uma vez era o Barulho.<\/p>\n<p>-Teimoso, o tipo \u2013 pensei, no entanto, meio segundo depois lembrei-me da Tranquilidade e desatei a correr na direc\u00e7\u00e3o dele antes que ela acordasse; podia ser um idiota, mas n\u00e3o merecia ter de levar com ela, ningu\u00e9m merecia.<\/p>\n<p>Bem tentei par\u00e1-lo, mas n\u00e3o consegui, ia a dar-lhe um murro por ele n\u00e3o dar ouvidos aos meus avisos, provavelmente por desespero de n\u00e3o querer ver a F\u00faria, quando ela acordou. Os seus olhos verdes viraram um branco quase ofuscante e o seu cabelo castanho claro parecia que flutuava no ar como as ondas do oceano. Percebi que n\u00e3o havia nada a fazer e fugi para perto do Sil\u00eancio.<\/p>\n<p>O Barulho n\u00e3o devia saber o que se passava nem com quem se estava a meter\u2026<\/p>\n<p>Sebasti\u00e3o\u00a0Perestrello 10.\u00ba B<\/p>\n<p>\u00a0_____________________<\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"text-decoration: underline\">Convidei a Alegria para o meu texto<\/span><\/p>\n<p>Chegadas as 5 horas da tarde, a campainha tocou e quando abri a porta, entrou-me a Alegria pela casa dentro. Vinha com um sorriso estampado na cara e vestida de cores garridas. Cumprimentei-a e levei-a para o meu texto. Convidei-a a sentar-se no meu par\u00e1grafo, a recostar-se nos meus adjectivos e a beber o batido de boas energias que tinha preparado para ela.<\/p>\n<p>Como estava frio, cheg\u00e1mo-nos perto da lareira a apreciar a tristeza a arder e a libertar fumo. A Alegria sorria de contentamento enquanto saboreava a sua bebida. Come\u00e7\u00e1mos por p\u00f4r a conversa em dia. Ela contou-me que agora tem andado muito atarefada. Todas as pessoas lhe imploram para que as visite diariamente &#8211; contava ela, enquanto se deliciava com o seu agrad\u00e1vel batido, at\u00e9 que perguntou: Ser\u00e1 que algum dia irei encontrar um ponto final? Eu disse-lhe que em princ\u00edpio n\u00e3o, porque ela \u00e9 um bem essencial para a vida das pessoas. E se depender de mim nem v\u00edrgulas encontrar\u00e1. Ali\u00e1s esteve muito ocupada comigo a contar-me hist\u00f3rias das suas irm\u00e3s Alacridade, Fortuna, Ventura, Felicidade, Satisfa\u00e7\u00e3o, Exulta\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m dos seus irm\u00e3os, G\u00e1udio, J\u00fabilo, Contentamento e do \u00caxito. Fic\u00e1mos horas, dias semanas juntas, at\u00e9 que ela tinha de ir visitar outros textos.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Agradeci a visita dela. Foi uma tarde agrad\u00e1vel e que espero tornar a repetir.<\/p>\n<p>\u00a0Ana, 10.\u00ba B<\/p>\n<p>\u00a0_________________________<\/p>\n<p><strong>Convidei o Sol para o meu texto<\/strong>, para me iluminar e me encher de ideias.<\/p>\n<p>Est\u00e1 atrasado, mas disse que vinha. Quando os seus raios penetrarem no meu c\u00e9rebro, lembrar-me-ei de algo para escrever. Espero que n\u00e3o tarde muito. Est\u00e1 a come\u00e7ar a arrefecer.<\/p>\n<p>\u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u2026 \u00a0<\/p>\n<p>O Sol quis jogar \u00e0s escondidas. Escondi-me atr\u00e1s das palavras mas ele depressa me apanhou. Quando foi a vez dele, escondeu-se atr\u00e1s das nuvens. Achei injusto, porque me \u00e9 imposs\u00edvel alcan\u00e7\u00e1-lo ali. Chamei-o de volta para o meu texto. Voltou mais radiante, com aquele brilhozinho nos olhos, todo contente por ter ganho, e um sorriso de raio a raio. A luz que sa\u00eda da sua face irritou-me profundamente. N\u00e3o gosto de perder. Apeteceu-me extinguir-lhe o fogo com palavras frias (gelo, neve, frigor\u00edfico, Sib\u00e9ria\u2026), mas h\u00e1 que tratar bem os convidados. Na verdade, eu nunca consigo ficar muito tempo zangada com o Sol. Ele consegue sempre derreter-me a alma e passado um bocado acabei com a birra.\u00a0<\/p>\n<p>De repente, chamou-me a aten\u00e7\u00e3o a Chuva l\u00e1 fora. Vou contar-vos um segredo. Embora seja dif\u00edcil de acreditar, a verdade \u00e9 que o Sol est\u00e1 perdidamente apaixonado pela Chuva. Ele quis logo ir ter com ela, mas a Chuva tem namorado, o Arco-\u00edris, e este logo apareceu para mandar o Sol embora. Voltou para junto de mim com um ar muito abalado. Disse que n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de brilhar mais, despediu-se e foi-se embora. Logo a seguir apareceu a Lua e trouxe consigo a noite. Estava cansada e deitei-me. Ali, na minha cama, sentia os meus olhos a fechar, a abrir, a fechar\u2026 Vi-me num novo mundo: o mundo dos sonhos.<\/p>\n<p>F\u00e1tima Cartaxo, 10.\u00ba C<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 \u00a0O ponto de partida foi este verso de Ondjaki : \u00abConvidei a chuva para o meu poema\u00bb. Pediu-se aos alunos que convidassem entidades especiais e que as recebessem no seu texto, essa sala privilegiada para acomodar a fantasia. 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