Visita de estudo a Lisboa e Mafra
Parlamentando com Cesário Verde, Eça de Queirós, Fernando Pessoa e José Saramago
Diário de bordo: uma viagem entre a terra e o mar
A visita de estudo, realizada nos dias 29 e 30 de abril, a Lisboa e Mafra, foi cuidadosamente organizada pelas professoras Helena Sebastiana e Manuela Ferreira, contando ainda com a presença do professor Augusto Miguel. Participaram nesta experiência as três turmas do 12.º ano e a turma C do 11.º ano, o que contribuiu para um ambiente de partilha, convívio e aprendizagem entre alunos de dois anos de escolaridade diferentes. Esta viagem foi muito mais do que uma simples saída escolar. Foi uma verdadeira viagem pela história, cultura e identidade do nosso país. Em apenas dois dias, percorremos lugares que contam séculos da história de Portugal, caminhámos entre a esfera política, a literatura, a arte e o esplendor do mar.
Iniciámos o primeiro dia no coração da democracia: a Assembleia da República. Entre palavras assertivas, oratória mordaz e discursos "balofos", assistimos ao Plenário e pudemos compreender melhor o papel das instituições e o valor da participação cívica.
Tivemos o privilégio de ser acompanhados pela deputada eleita pelo círculo do Porto e Presidente da Juventude Socialista, Sofia Pereira, natural de Lamego. A sua disponibilidade e proximidade transformaram a visita numa verdadeira aula prática de cidadania. O seu carisma e amabilidade destacaram-na, sem dúvida, em relação aos estereótipos de caráter impostos nos deputados do Parlamento.
Seguiu-se o início dos percursos literários por Lisboa, uma forma diferente e enriquecedora de conhecer a cidade. Locais como a Rua do Carmo, a Praça dos Restauradores e a Praça do Comércio deixaram de ser apenas pontos turísticos para se tornarem espaços carregados de significado histórico e cultural. Caminhar por estas ruas foi, de certa forma, percorrer páginas vivas da literatura e da história portuguesa. Além de toda a personalidade inerente às ruas citadinas, destaco a grandiosidade do nosso destino final, no caso, a Praça do Comércio. Um local carregado de história portuguesa, mostrando que talvez Lisboa seja mesmo a alma de Portugal, mas sem que o resto do país se torne somente uma simples "paisagem", como sugere o mordaz ditado popular.
A estadia na Pousada da Areia Branca trouxe também um momento de júbilo, descontração e convívio. Situada junto à praia, proporcionou um ambiente diferente do habitual, onde o grupo pode fortalecer laços e criar memórias inesquecíveis fora do contexto formal de aprendizagem.
No dia seguinte, a visita ao imponente Palácio Nacional de Mafra destacou-se pela sua magnificência. Este monumento não impressionou apenas pela sua dimensão, mas também pela riqueza histórica e artística que encerra. Percorrer os seus corredores foi quase como regressar ao tempo da monarquia e compreender melhor o poder e a visão da época. Em especial, para os alunos do 12.º ano, foi um momento de grande análise e reflexão graças ao romance Memorial do Convento, de José Saramago. E como a música tem magia, não posso esquecer que o Daniel Cardoso, aluno do 12.º A, se tornou um verdadeiro Scarlatti quando tocou piano em Mafra.
O regresso a Lisboa trouxe ainda a oportunidade de visitar alguns dos seus monumentos mais emblemáticos: a Torre de Belém, o Mosteiro dos Jerónimos e o Padrão dos Descobrimentos. Estes locais, profundamente ligados à época dos Descobrimentos, ajudaram a consolidar conhecimentos históricos e a compreender melhor o papel de Portugal no mundo.
Roteiro seguido, objetivo cumprido
Um dos aspetos mais marcantes desta visita foi o papel ativo da nossa turma, o 11.º C, na construção do roteiro digital da viagem, com a orientação da professora Helena Sebastiana. Mais do que um simples trabalho escolar, este roteiro foi uma ferramenta dinâmica e envolvente, pensada não como um documento formal, mas como um verdadeiro guia de exploração. Nele, reunimos informação sobre os locais a visitar, a sua relevância histórica e cultural, bem como curiosidades que tornaram cada paragem mais significativa. Esta preparação prévia permitiu-nos olhar para a cidade com olhos mais atentos e conscientes.
Durante os percursos por Lisboa, houve momentos particularmente simbólicos, como a passagem pela casa onde viveu Fernando Pessoa, bem como o encontro com a sua icónica estátua, que parece observar silenciosamente o movimento constante da cidade. Estes detalhes aproximaram-nos não só da literatura mas também da vivência real dos autores que estudamos, tornando tudo mais concreto e memorável.
Outro aspeto impossível de ignorar foi a intensidade e o ritmo da própria cidade. Lisboa revelou-se bastante vibrante, marcada por uma constante movimentação de pessoas, transportes e atividades, contrastando fortemente com a realidade mais tranquila de Lamego. Esta diferença não passou despercebida. Se, por um lado, Lisboa impressionou pela sua energia e diversidade, por outro, fez-nos valorizar a calma e a proximidade características da nossa cidade. Este contraste contribuiu para uma reflexão mais ampla sobre diferentes formas de viver e experienciar o espaço urbano, algo bastante evidente nas composições poéticas de Cesário Verde. Este poeta também refletia sobre a dicotomia entre o campo e a cidade, demonstrando o seu olhar atento e o papel da sua imaginação.
A literatura é também uma "arma"
Um dos momentos mais simbólicos desta visita acabou por se relacionar com o contexto atual do ensino da disciplina de português. Perante a discussão em torno da possível retirada da obra Memorial do Convento do ensino secundário, muitas vezes associada a leituras ideológicas da obra e do próprio José Saramago, a nossa viagem ganhou uma dimensão ainda mais relevante. Estar naquele espaço, compreender a sua história e reconhecer o valor literário da obra reforçou a ideia de que a educação deve promover o contacto com diferentes e plurais perspetivas da vida e não limitá-lo.
Nesse sentido, a nossa passagem pela Assembleia da República não foi apenas de observação e aprendizagem, foi também participada. Tivemos a oportunidade de entregar à deputada Sofia Pereira um exemplar de Memorial do Convento. Um gesto simbólico que procurou sublinhar a importância da obra no percurso académico dos alunos. Para além disso, foi também entregue uma carta formal, elaborada pela professora Helena Sebastiana, destinada à Comissão de Educação e Ciência, onde estava expressa a nossa posição contrária à exclusão desta obra das aprendizagens realizadas no 12.º ano, na disciplina de português.
Este momento demonstrou que a escola não se limita a aprendizagens teóricas mas que também pode ser um espaço de intervenção cívica consciente. Mais do que estudar literatura, há que reconhecer o seu papel fundamental na formação crítica e cultural dos alunos.
Por fim, esta escapatória à rotina escolar proporcionou um fortalecimento de relações de amizade entre todos os participantes. Foi uma visita enriquecedora e entusiasmante e um excelente exemplo da contextualização das aprendizagens realizadas na escola.
Patrick Monteiro, 11.º C, n.º 12








































